segunda-feira, setembro 18, 2017

Queermuseu: quando a ilusão choca mais que a realidade.

Todo dia de manhã eu paro com Cecília em frente ao espelho. Ela olha, ri, já se reconhece. E como o espelho é muito leve, ela avança para cima dele e levanta a moldura para olhar do outro lado. Ela faz o mesmo quando mostramos uma foto sua no celular.

Cecília já entendeu que as coisas ao seu redor têm dimensões: a frente, o atrás e os lado - as famosas três dimensões. Como ela ainda não abstraiu para o fato de que a imagem projetada do espelho é uma ilusão, ela espera ver o "fundo" da imagem do espelho, ou seja, a projeção tendendo ao infinito daquilo que ela vê. Porque é isso que ela entende da concretude sensível do mundo: algumas coisas estão perto, outras estão longe, e adiante do olhar encontra-se uma infinidade de elementos a serem vistos e tocados.

A obra de arte – especificamente a pintura e a fotografia – opera da mesma forma ilusória que o espelho. Diante de nós se apresenta uma paisagem: você vê as árvores, o céu, o riacho, mas aquilo que se vê não existe para além da moldura ou do porta-retrato. Por mais realista, colorida e iluminada que for a pintura, ou o retrato, aquela paisagem ou aquele retratado são meros elementos visuais, sensíveis. Da árvore não se pode colher os frutos, e o retratado não pode cumprimentar.

É o que eu, no calor desse momento, estou chamando de paradigma de Magritte. Observem a imagem que ilustra o post, um quadro do pintor belga René Magritte (1898-1967). Obviamente que, ao olharmos o quadro, entendemos que ele pintou um cachimbo. Mas atenção para o que ele escreve abaixo do cachimbo: “isso não é um cachimbo”. Mas como? Não estamos vendo um cachimbo? Não concordamos que é um cachimbo? Não reconhecemos ali o objeto cotidiano que denominamos cachimbo? Sim, mas nesse cachimbo pode-se tocar, colocar fumo, leva-lo à boca e apreciar o fumo? O que Magritte impõe ao observador é a lembrança daquilo que Cecília já aprendeu: um objeto só se estabelece como objeto diante de sua concretude. Enquanto imagem pictórica, o cachimbo é tão somente um símbolo, um código, uma ideia; o cachimbo sobre a mesa, pronto para ser utilizado, esse sim é um objeto material, concreto, real.

Isso tudo me serve de introdução para explicitar minha posição sobre a exposição “Queermuseu”, e toda a [falsa] polêmica que ela suscitou. Os moralistas e catequistas dos “bons costumes” pecam, de um lado, pela ignorância e, por outro, pela hipocrisia. Porque armam um cavalo de batalha por nada mais do que uma imagem, um símbolo, uma ideia. Por mais gráfica que seja a cena de zoofilia, ou por mais horripilante que seja a cena de estupro, são só imagens. Há tanta violência ali quanto há perfume nas margaridas de Van Gogh. O que o paradigma de Magritte pode estabelecer como premissa é que ao se considerar como realidade aquilo que é mera ilusão, nega-se a existência da realidade.

Nenhuma imagem deve ser mais gráfica ou horripilante que a realidade. Pois tudo o que existe como representação imagética, existe como expressão fenomênica do real. Magritte pinta o cachimbo porque existe um objeto concreto chamado cachimbo. Adriana Varejão pinta uma cena de zoofilia porque existe, na realidade concreta, a perversão sexual. Não é necessária “apologia” a zoofilia, ao estupro, e ao abuso infantil: eles existem, são reais e matam diuturnamente. O que a obra de arte faz, na sua operação simbólica, é plasmar o real em um código ético universal. Se vemos uma cena de abuso infantil, em uma pintura ou em um filme, o que deve nos chocar e nos revoltar não é a cena em si, mas sim o quanto de abuso, físico e psicológico, ocorre silenciosamente deixando marcas reais em pessoas reais.

Se a arte, como imitação da realidade, é uma ilusão que mistifica a realidade, o que resta para a arte - na verdade, aos artistas? Resta rejeitar o caráter mistificador da realidade que está contido na obra de arte. No momento em que se quebra essa relação mistificadora da arte com a realidade, o que se evidencia é o arcabouço histórico que estrutura o artista e sua obra. A censura imposta à exposição Queermuseu não é só uma censura a artistas. É uma censura à própria realidade, como se fosse possível relegar à invisibilidade aquilo que a arte, dentro de sua função social, tem o dever de levantar. 

quarta-feira, julho 23, 2014

O anacronismo do verbo ouvir em quatro movimentos: Gustavo Dudamel e a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar no TMRJ.

I.
 
Andante comodo. Cadeiras rangem de espectadores buscando a melhor posição. Serão quase duas horas de concerto, sem intervalo. O sangue precisa circular. Outros tossem violentamente, um hábito tradicional de quem senta nos andares superiores do Theatro Municipal. Alheios à cacofonia de gargantas ao redor, uma multidão de pessoas estão ávidas para registrar o deslumbre que é o salão do Theatro Municipal. E não há só a necessidade de registrar o Theatro, mas também registrar-se no Theatro. Selfies e check-ins são parte do novo habito de ir à concertos.
 
Mas haverá um concerto no Theatro Municipal. No programa: a Nona sinfonia de Gustav Mahler, sua última obra sinfônica completa. No palco, dois orgulhos nacionais do nosso país vizinho, a Venezuela: um é a Orquestra Sinfônica Simón Bolívar, um caso raro de sucesso entre orquestras latino-americanas, que une qualidade técnica de nível internacional, experiência e formação jovens musicistas. São os louros de um trabalho excepcional de musicalização infanto-juvenil difundido em toda a Venezuela, conhecido como El Sistema.
 
O outro é o fruto mais famoso do El Sistema, e diretor artístico da OSSB, o maestro Gustavo Dudamel. Jovem, porém com larga experiência, Dudamel também é diretor artístico da Orquestra Filarmônica de Los Angeles e também já regeu as grandes orquestras de Viena, Berlim e Nova Iorque. Mas seu vínculo com a Simón Bolívar é mais que duradouro. Conjunto e regente colocaram a vilipendiada Venezuela no mapa cultural musical mundial. Curioso pensar que a orquestra do país que não tem frango, nem papel higiênico, é largamente superior que seus pares no Brasil, e capitaliza mundialmente com a venda de CDs e DVDs.
 
Começa a sinfonia. Surge o primeiro tema. Uma elegia melodiosa e plácida, porém irregular. Começa com suaves toques de trompete e o dedilhar de uma harpa. Soa como um realejo desafinado, ou batidas irregulares de um coração. Seria o coração do próprio Mahler à falhar? O compositor morreria semanas após concluir a composição de sua Nona, uma infeliz coincidência que o iguala à Beethoven, Schubert e Bruckner tanto na genialidade quanto no infortúnio. As cordas desenvolvem o tema, acompanhados da clarineta e do corne inglês. Com uma modulação, os violinos inserem um pequeno momento de tensão. Violas acompanham. Uma moça se debruça sobre a poltrona para tirar uma foto da orquestra em ação. As trompas tornam-se mais incisivos, violas e violinos se agitam, crescem em volume, como que anunciando uma tempestade. Click. Junto com as cordas crescem trompetes e trombones, flautas e clarinetas, o tímpano ribomba vigorosamente, e como o sol que vara o amanhecer de luz, a orquestra em uníssono inunda o teatro de som. Click, canta também a máquina da moça, disparando um clarão de flash no salão escurecido. Um momento congelado e registrado para a rede social. No palco, o movimento segue.
 
A composição da Nona precedeu um período conturbado da vida de Mahler. Em 1907, apesar de vários triunfos como diretor artístico da Ópera de Viena, Mahler foi vitima de uma ferrenha campanha difamatória encampada pela alta sociedade vienense. A forma intempestiva com que comandava a Ópera, seu casamento com a socialite Alma Schindler, sua ascendência judaica, tudo era motivo de discórdia e fofoca, amplamente divulgada na imprensa. Mahler decide, então, pedir demissão da Ópera de Viena e retirar-se para sua casa de campo. Lá, a filha Maria, de quatro anos, morreu de uma infecção de escarlatina. A morte de Maria aprofundou uma crise conjugal que se arrastava à alguns meses, e os rumores de que Alma e o arquiteto Walter Gropius (futuro fundador da Bauhaus) mantinham um relacionamento provaram-se verdadeiros. Logo em seguida, veio o diagnóstico da doença cardíaca que o vitimaria em 1911. À beira de ataque de nervos, Mahler passou por sessões de terapia com Sigmund Freud. Só então sentiu-se saudável e recomposto para retomar o trabalho como compositor. Uma luz de lanterna de celular surge na poltrona da frente, incomodando os olhos acostumados à penumbra. Será que alguém procura essas informações no programa? Página dois, os dois primeiros parágrafos. Leia rápido, por favor.
 
II.
 
Im Tempo eines gemächlichen Ländlers. Etwas täppisch und sehr derb. No segundo movimento da Nona encontramos Mahler em contato com a serenidade. Longe da vida agitada da cidade, em comunhão com os Alpes austríacos de sua adoração, que lhe forneceram uma centena de linhas inspiradas, Mahler toma a partitura para dançar. O uso do Ländler, uma dança folclórica austríaca, não é novidade na escrita mahleriana. Ele surge nas sinfonias de Mahler como um alívio cômico, uma descarga de alegria em um espírito cansado e taciturno. Querida, isso não está escrito no programa. Desligue a lanterna, que já está incomodando.
 
Começa com os violinos apresentando o tema. Cinco notas insinuantes. É o convite à dança. A clarineta responde, seguido do fagote e das trompas. O convite foi aceito. Chega a vez das violas se incorporarem à melodia, apresentando o segundo tema. Forma-se a roda. Cordas e sopros se alternam na apresentação dos dois temas e a ciranda de sons é constante. De novo um click mais à frente, e o flash a iluminar o salão. Mais um momento congelado para o Instagram, e a música segue. A ciranda dá lugar a uma valsa. As cordas apresentam o tema. Não é uma valsa de salão, onde imaginaríamos a princesa Sissi debruando vestidos de seda à impressionar a corte. É pesada e rústica, como é a vida campesina, mas não vazia de alegria e jovialidade, sentimentos nos quais Mahler quer afogar-se por inteiro. Cordas, sopros e percussão se unem para uma vigorosa execução. Ao meu lado, dedos frenéticos trocam mensagens pelo Whatsapp, como que acompanhando os compassos da música. Mais à frente, novamente o click e o flash. Se há uma convulsão de sons e melodias no palco, há na plateia os seus concorrentes.
 
A dança vai diminuindo sua intensidade. Aos poucos, os instrumentos vão deixando a roda, até restar os sopros expondo o tema inicial do movimento, aquelas cinco notas insinuantes e convidativas. Mahler não quer deixar o momento acabar. O fim da dança é o fim da alegria, da jovialidade, tudo o que falta ao compositor no seu momento de miséria. Mas se nada é feito para durar, que seja proveitoso até o último minuto. Fagote e corne inglês alternam-se na exposição do tema, o som diminuindo gradativamente até que o movimento se encerra com a flauta. Silêncio no palco. Na platéia, cadeiras rangem e gargantas pigarreiam. Parece que são todos acometidos de uma tuberculose crônica. Mas as gargantas aquietam, e os assentos parecem mais confortáveis. Tudo pronto para o terceiro movimento.

III.

Rondo-Burleske: Allegro assai. Sehr trotzig. Realmente, nada é feito para durar. A alegria jovial daquela dança campesina do segundo movimento, transforma-se numa caricatura burlesca de si mesma no terceiro movimento. O som de uma orquestra em fúria se levanta no Theatro. Trompetes anunciam o tema, seguido por violinos e violas. As cordas atacam a melodia com intensidade, numa sucessão de harmonias dissonantes. Surge uma nova dança, feérica, irônica. Click. Cada arpejo vale um flash.
 
Mahler passa em revista suas realizações, conquistas e triunfos. Talvez tenha lembrado de sua conversão pragmática ao catolicismo, para conseguir o cargo de diretor da Ópera de Viena. Seu comentário sobre o assunto, confidenciado a um amigo da época, mostra bem o espírito de Mahler: “apenas troquei de capa”. Até poucos anos após sua morte, o mundo musical o reconhecia como um regente superior à média, tendo suas interpretações de Mozart e Beethoven grande destaque. O valor que dava aos compositores contemporâneos também era digno de nota. A ópera italiana renovava-se no mundo germânico com produções capitaneadas por Mahler e Viena. Como compositor, no entanto, o reconhecimento não encontrou a mesma acolhida. Suas sinfonias são longas, contendo uma infinidade tal de melodias que deixa o ouvinte incauto zonzo de tanto som.
 
À tudo isso, Mahler responde como uma criança travessa, dando a língua e rindo por último. Mesmo sujeito à critica e ao escárnio dos homens de seu tempo, Mahler compôs a música que estava presa dentro de si, sem concessões. A grandiosidade de suas orquestrações, a quebra constante de paradigma da forma sinfônica, seu fascínio pelos temas mais profundos do inconsciente – o amor, a morte, e a redenção espiritual. Mahler trouxe para si a responsabilidade de compôr uma música que contemplasse a vastidão de um universo que não se vê com olhos, e divertiu-se com a tarefa. Click.
 
IV.
 
Adagio. Sehr langsam und noch zurückhaltend. Mahler tinha mais fôlego de vida no espírito, do que cabia em seu peito. O coração não duraria mais tanto tempo e o esforço de emendar na composição de uma décima sinfonia provar-se-ia infrutífero. Sua Nona chega ao último movimento e ainda há tanta música para ser escrita, que parece não caber numa folha de pauta. A vida não é justa, mas é a vida que temos para viver da melhor maneira possível. É o que diz o movimento lento que encerra a obra.
 
O movimento começa com uma melodia arrastada pelos violinos. Soam como o suspiro que sucede um longo choro. Resignação. Segue-se um longo tema, com todas as cordas em harmonia. Cada nota soa como uma suflada de ar pelo corpo. Ainda há sangue nas veias, ainda há um coração batendo, ainda há vida. Mas está acabando, infelizmente. Mahler vai se despedindo do seu ofício, que era também sua vida. Click, click. Mais um selfie para o Facebook. O adeus é dolorido. Juntam-se às cordas os fagotes, as flautas, os trombones, os trompetes. Toda a orquestra, cada instrumento ao seu modo, com seu som único, vai também se despedindo. A relação entre o compositor e a sua música é um caso de amor inequívoco.
 
Pianissíssimo. Mahler vai se agarrando ao último fogo de vida de sua obra, como se disso dependesse anos à mais para compor as melodias que ainda povoam seu gênio. Os últimos acordes de sua Nona são as últimas linhas de um poderoso testamento musical. Mas o que virá depois, talvez pergunte Mahler não para si, mas para suas obras, sua música. Será o silêncio a morte da música, ou seu momento fundante? Na dúvida, melhor que a música não pare. Ewig, ewig, ewig... Click.
 
Ao passo em que a música se encerra, como um último suspiro de existência, uma angústia toma conta da platéia, ávida pelo aplauso automático. Um grito de bravo tira a platéia de sua miséria. Todos aplaudem com entusiasmo e pedem bis. Querem mais um momento congelado para o Facebook, um último registro para o Twitter, uma última foto com filtro para o Instagram. Enquanto uns oferecem ruídos mundanos em troca de melodias titânicas, outros aprisionam o momento numa câmera de iPhone, para a lembrança não da memória, mas da rede social. Pobre Steve Jobs, que inventou um dispositivo capaz de aprisionar imagens, mas esqueceu de inventar um dispositivo que aprisionasse também o som. É uma triste e irônica lembrança essa, a de uma orquestra eternizada pelo silêncio.

quarta-feira, junho 19, 2013

Entre protestos e gases, a construção da Primavera Brasileira.

Discordo dos que não consideram nossa onda de protestos algo que se possa chamar de Primavera Brasileira. A primavera é a estação do despertar, é a estação onde se lançam as sementes para a colheita futura. A Primavera de 1848 durou apenas um ano, mas moldou o espírito político social da Europa até o século XX. A Primavera Árabe conseguiu muito mais do que podia, em menos de cinco anos. E agora assombra governos que até pouco tempo restavam seguros de suas posições hegemônicas (vide a Turquia). O Brasil simplesmente acomapanha a vaga mundial e deixa de ser terra infértil.

Ao mesmo tempo, compartilho a preocupação de alguns quanto ao caráter político de nossa Primavera Brasileira – deixando um grifo importante e enfático no “caráter político”. Diante da ainda efêmera vitória alcançada ontem, em várias capitais do país, desenham-se esquemas obscuros, de latente caráter sabotador. E contra eles, os manifestantes não possuem preparo para combater.

Destaca-se a manipulação midiática em torno das manifestações. Em editorial feérico há duas semanas atrás, o jornal A Folha de São Paulo defendia punição severa aos manifestantes da Avenida Paulista. A Rede Globo, ao noticiar os eventos, só destacava os episódios de depredação. Os comentaristas de segurança de todos os telejornais, eram só elogios à ação truculenta das polícias militares. Em todas as emissoras, era o mesmo mote: destaque para as cenas de depredação e descaracterização da frente de luta. Mas a polícia é bem mandada e cumpre ordens à risca. A violência policial atinge os meios de comunicação e uma repórter da Folha é ferida gravemente no olho direito. E então, só então, surgem na grande mídia os relatos da violência gratuita. Em vídeo postado na internet no domingo, policiais militares do Rio jogam gás lacrimogêncio em manifestantes no Campo de São Cristóvão. Mulheres e crianças que passeavam no parque também são atingidos. A opinião pública pende para o outro lado. A grande mídia prepara a guinada.

E o que se vê hoje? A Folha de São Paulo está em cima de toda ação policial, que agora é caracterizada como violenta. Rodrigo Pimentel destaca o despreparo da polícia em ações de contenção de multidões. Arnaldo Jabor pede desculpas públicas por engrossar o coro pela repressão. E o que nasceu da rua, da espontaneidade popular, passa a ganhar ares novelescos. Os manifestantes do bem, que vestem branco e distribuem flores. Os baderneiros do mal, que incendeiam carros e destróem o patrimônio público. Os que defendem a bela democracia, de espírito jovem e ordeiro. Os desordeiros que desestabilizam o movimento e não representam a maioria. Impoem agora quem está apto para protestar, como protestar, e pelo quê protestar. Todos fazem parte da mesma luta. Todos estão na rua pela mesma idéia, todos gritam pelos mesmos direitos. Mas para a grande mídia, só os que vestem luvas de seda tem direitos. Azar o deles. Quem não rasgar as luvas de seda, não está disposto a se sujar. Não está preparado para a rebelião social.

É preocupante a idéia de “despolitização” dos protestos, que inunda a mente dos manifestantes. Faixas com os dizeres “nenhum partido me representa” são erguidas com entusiasmo. A fala do governador Sérgio Cabral Filho, e a manifestação de alguns pela internet, faziam coro a esse propósito e criticavam o “caráter político” de algumas manifestações, que destoavam do “caráter popular” que os protestos deveriam ter. Talvez por isso, alguns militantes de esquerda, que empunhavam as bandeiras de seus partidos e de suas organizações, foram hostilizados pela maioria dos presentes aos atos. Espalhava-se pela rede, entre os militantes de esquerda, que nenhuma mafestação a favor do ato deveria ter “caráter político”. Ontem, em São Paulo, um militante do PCR (Partido Comunista Revolucionário) foi expulso do ato aos aplausos da multidão. Mais à noite, um grupo do PSTU foi vaiado e hostilizado.

Porém, examine-se nas imagens da TV quais bandeiras estavam presentes nos atos em todo o país. Havia entre elas alguma representante da conhecida oposição ao governo federal? E se o governo afirma que as manifestações são legítimas da ordem democrática, onde estava para conter o abuso policial nos últimos enfrentamentos? Desde ontem, deputados, senadores, e políticos de diversas correntes louvavam o espírito aguerrido dos manifestantes. O programa partidário do PMN, por quase dez minutos, ressaltava que só a organização popular é capaz de transformar o país. Onde estavam todos eles, quanto as manifestações não ganhavam o vulto midiático que agora possuem?

A isso não se denomina “despolitização”, denomina-se “alienação político-partidária”. A idéia corrente de que os partidos políticos abusam da boa vontade do povo, fazendo prevalecer pretensas ambições de poder. Os que se manifestam contra os partidos que apoiam os protestos cantam, na verdade, uma grande ode à nazificação do movimento. Enquanto muitos foram para a rua protestar pela primeira vez, vários já estiveram em protestos antes. Enquanto muitos se deslumbravam com os cem mil que inundaram a Rio Branco, vários sabiam que aquela marcha ainda significava pouco. Construir uma unidade política, unificar uma vasta agenda de demandas, no meio de um grupo tão heterogêneo, é um desafio maior e mais árduo do que mobilizar pessoas pelo Facebook. A rua não é lugar para sectarismo. Ela já esteve ocupada por essas bandeiras antes, e continuará ocupada por elas quando a maioria cansar de brincar de manifestante. E é isso que diferencia quem possui ambições de poder, e quem é comprometido com uma luta verdadeiramente democrática.

Para quem acordou agora para o clamor das ruas, bem-vindo à luta! Mas saiba que já tinha gente nela antes. Conheça-os antes de hostiliza-los. Eles podem te ajudar a construir algo mais sólido para o seu país do que a sua simples indignação.

quinta-feira, abril 11, 2013

A ferrugem da Dama de Ferro

Na minha última postagem, sobre o papa Francisco, cheguei a abordar como o poder político de um cargo pode reescrever a biografia de uma pessoa. Para tanto, faz-se necessário que tal pessoa disponha de um aparato midiático disposto a reescrever sua biografia, refutando ou eliminando qualquer ruído sobre fatos que diminuam o caráter do biografado. O papa Francisco tem logrado sucesso nessa empreitada. A revista Veja, em sua edição de 27 de março desse ano, anunciou já na capa que a influência do novo pontífice na política da América Latina "será uma benção". Estaria a revista se referindo ao "papa dos pobres", ou ao delator de confrades?

Descobrimos agora que a morte também é capaz de reescrever uma biografia manchada. O aparato midiático mundial se presta, durante toda a semana, a homenagear a Dama de Ferro, a ex-Primeira Ministra britânica Margareth Thatcher. Com seu passamento, a linha dura e a intransigência características dos seus anos de governo foram suavizadas, relativizadas e louvadas como exemplo de liderança firme e ousada. Sua forte oposição a socialismo colocam-na ao lado de Ronald Reagan e João Paulo II, como colaboradora no desmantelamento do bloco soviético, mas esquecem-se de seu apoio incondicional ao ditador chileno Augusto Pinochet, inclusive durante o exílio deste em Londres. Também esquecem-se (ou querem que se esqueça) seu apoio velado ao sistema de Apartheid na África do Sul, acusando Nelson Madela de "terrorista". Aliás, é bem sabido o tratamento preferencial que a Sra. Thatcher dispensou aos "terroristas" do Exército Republicano Irlandês (IRA).  

O auge do governo Thatcher foi entre 1979 e 1981, quando a Grã-Bretanha entrou numa forte recessão econômica. O que a mídia mundial tenta mostrar é que a recessão britânica foi causada pelo dívida pública crescente, que o então governo trabalhista de James Callaghan gastava demais para manter o estado de bem-estar social, e que a inflação estava descontrolada devido ao custo de vida elevado. É nesse cenário que surge Margareth Thatcher. O Partido Conservador, derrotado nas últimas três eleições até aquele momento, transmitia a mensagem de que a chave do sucesso para a economia britânica era a austeridade, o dispêndio consciente do orçamento público e o corte inevitável dos excessos. E onde os tradicionais políticos ingleses falharam, uma mulher teria êxito. Pensavam que se a dona-de-casa não fizesse bem, também não faria um mal pior do que o que se desenhava. Triste constatar que uma mulher pode ser eleita líder de um país não por suas credenciais ideológicas, mas pelo seu sucesso nos afazeres domésticos. Cúmulo do machismo velado, que ainda ronda alguns discursos por aqui.
 
Mas é preciso analisar tudo pelo espectro mais amplo. A recessão econômica do período não era privilégio da Grã-Bretanha, pois atingia vários países desenvolvidos e em desenvolvimento. Ela já vinha desde o início da década de 1970, com a crise de abastecimento do petróleo. Foi uma crise sistêmica do grande capital especulativo, causada pela flutuação de câmbio das moedas fortes do período, como o dólar e a libra esterlina. Com a flutuação do câmbio, já que não há lastro que as sustente, surge a necessidade de aumentar as reservas monetárias - na prática, significa imprimir mais papel-moeda. Com mais dinheiro circulando no mercado, menos valor agregado o dinheiro acumula. As moedas desvalorizam, os preços disparam, as mercadorias encalham e começa a recessão. Não foram os gastos públicos, nem os benefícios sociais que levaram à instabilidade econômica. Foi a desregulamentarização do capital especulativo que causou a recessão.
 
No entanto, isso nunca fica aparente. A mídia e os partidos políticos ligados ao capital financeiro insistem que o gasto com os benefícios sociais são os responsáveis pela crise. A onda de recessão que levou Margareth Thatcher ao número 10 da Downing Street, foi a mesma que levou Ronald Reagan à Casa Branca. E daqui começou uma nova fase da exploração capitalista. O mantra entoado era que os benefícios socias pesavam os cofres públicos, e a máquina burocrática do governo deveria ser enxugada. Estatais que não dessem lucro deveriam ser entregues ao setor privado, e assim seriam melhor administradas. Financiamentos estudantis deveriam ser cortados, incentivos à moradia reduzidos. O governo reduzia custos não para reverter o caos econômico, mas para ajudar o capital mundial a balancear sua receita. Ao cortar financiamentos à educação e à moradia, ao privatizar indústrias chaves para o crescimento econômico, os governos Reagan e Thatcher garantiram, às custas do contribuinte, que o capital teria lastro para mover sua espiral de especulação e apropriação, com recusros que eram públicos. Esse mote econômico formou a base do que se convencionou, anos mais tarde, de Consenso de Washington. Na verdade não havia consenso. Era uma receita amarga. Para se enquadrar nos moldes do capitalismo financeiro mundial, os países deveriam desonerar suas receitas. Provamos desse remédio amargo nos governos Collor e FHC. Se hoje a Petrobras divide os lucros do petróleo com a Halliburton, agradeçam em parte à Dama de Ferro e sua política de austeridade.
 
Analisando todo esse retrospecto, e levando em consideração os atuais modelos democráticos, uma questão vital se desenvolve e pode ser resumida no seguinte: é para isso que elegemos governantes? De acordo com o ideário democrático em que se pauta a sociedade ocidental, governos são eleitos para representar a vontade do povo, satisfazer as demandas da sociedade e garantir a todos o direito básico de acesso à educação, saúde, cultura e justiça. No entanto, os estudantes que protestaram contra o corte no orçamento das universidades públicas foram duramente reprimidos. Os trabalhadores que lutaram pela manutenção do seu direito básico ao trabalho foram espancados como animais indóceis. Os presos políticos do IRA, por se recusarem a serem tratados como míseros ladrões de galinhas, foram deixados para morrer de fome. Fomos criados com a noção de que a vontade do povo é soberana, e que nossos governantes são obrigados a ceder a essa vontade. Essa é uma visão totalmente distorcida da realidade política da nossa sociedade, como também é uma distorção ideológica do próprio conceito do que é democracia. A realidade política da nossa sociedade é que, apesar de elegermos nossos governantes, eles não são regidos pela vontade e soberania do povo, e sim pelos seus próprios interesses. Interesses de classe.  O sistema capitalista é regido por uma minoria montada em grandes conglomerados financeiros, e é amparada abertamente pelos estados, sem hesitação. Portanto não se engane.Você elege governantes que se preocupam com a manutenção dos privilégios do grande capital e da minoria que se beneficia dele. E pela manutenção desses privilégios o capital pode fazer concessões, mas nunca mudar seu caráter de exploração

Não me surpreende que em várias cidades inglesas (especialmente no norte do país, que concentra a maior parte da indústria pesada e extremamente afetado pelas política econômica do governo Thatcher), pessoas se reuniram para realmente celebrar a morte de Dama de Ferro. Os torcedores do Liverpool, time da primeira divisão inglesa de futebol, costumam cantar uma pitoresca canção em homenagem a Dama de Ferro: "Nós vamos fazer uma festa... Quando Maggie Thatcher morrer!"



Dama de Ferro. Os soviéticos deram esse apelido à Sra. Thatcher, de forma bastante ofensiva. A dama de ferro era um instrumento de tortura medieval. Um caixão de ferro fundido onde cabia um adulto em pé, e por dentro era cobertos com longos pregos. Ao fechar o caixão, os pregos perfuravam o infeliz, fazendo-o sangrar até a morte. A Sra. Thatcher não só aceitou o epiteto de bom grado, como fez exatamente isso: arrochou a classe trabalhadora de tal modo que a fez sangrar.

Existe uma verdade inconveniente nisso tudo. Certas coisas não podem ser perdoadas, porque certas coisas não podem ser esquecidas. Desejar a morte de uma pessoa não é uma atitude das mais nobres. Mas a morte não enobreçe o caráter, nem torna ninguém virtuoso. O que vem depois da vida é regido pela fé, pelo mistério, ou pelo nada. Mas isso não importa. As pessoas são o que elas deixam como legado em vida. E o legado da Sra. Thatcher é de erva daninha!

Por isso, nessa semana, eu me junto aos Reds de Liverpool e digo sem rubor: party everyday!

terça-feira, março 19, 2013

Construindo um papa humilde

Fica evidente o esforço da mídia nacional e internacional em louvar as mínimas atitudes do novo papa, ressaltando seu espírito humilde e simples. Jorge Mario Bergoglio, ex-arcebispo de Buenos Aires, e oficialmente entronado hoje como papa Francisco, assume a igreja romana cercada pelos escândalos sexuais entre seus sacerdotes, pelas denúncias de corrupção envolvendo a Cúria romana, e pelo descrédito que envolve os fiéis europeus e na América do Norte. Um papa forte, e ao mesmo tempo compassivo, segundo analistas, pode ajudar a combater a grande crise que paira sobre a Igreja Católica. O que parece é que os líderes da Igreja Católica embarcaram numa jornada em busca de algo há muito perdido, em toda a cristandade: os ensinamentos do próprio Cristo.
 
Pairam sobre o papa Francisco a desconfiança sobre suas reais ligações com a ditadura argentina. O porta-voz do Vaticano prontamente descaracterizou as denúncias, acusando o jornalista argentino Horácio Verbitsky de “esquerdismo”. A imprensa de modo geral pouco se ocupou do assunto. Talvez porque os fatos apresentados por Verbitsky são incontestáveis. Além de vários documentos, o jornalista reforça o relato do jesuíta Francisco Jalics, religioso perseguido durante a ditadura militar argentina e hoje radicado na Alemanha. Em seu livro Exercício de Meditação, de 1994, Jalics narra o seguinte:
 
“Muita gente que sustentava convicções políticas de extrema-direita via com maus olhos nossa presença nas vilas pobres. Interpretavam nossa presença ali como um apoio à guerrilha e se propuseram a nos denunciar como terroristas. Nós sabíamos de que lado soprava o vento e quem era o responsável pelas calúnias. De modo que fui falar com a pessoa em questão e expliquei que estava jogando com as nossas vidas. O homem me prometeu que diria aos militares que não éramos terroristas. Por declarações posteriores de um oficial e trinta documentos aos quais tivemos acesso mais tarde pudemos comprovar, sem lugar para dúvidas, que esse homem não só não havia cumprido sua promessa, mas, ao contrário, havia apresentado uma falsa denúncia aos militares”.
 
Outro religioso jesuíta, Orlando Yorio, em carta escrita ao assistente geral da Companhia de Jesus em 1975, foi mais direto. Afirmou que Bergoglio era o autor das denúncias.
 
As contundentes provas contra o papa Francisco devem ser analisadas dentro do contexto amplo da submissão do alto clero sul-americano aos governos militares de seus respectivos países. Em ata de reunião realizada em 15 de setembro de 1976, entre a junta militar e a Conferência Episcopal Argentina, fica explícito o apoio incondicional do clero argentino ao chamado Processo de Reorganização Nacional daquele país. Nesse documento, amplamente divulgado por Verbitsky, fica esclarecido que a igreja na Argentina não pretende “encabeçar uma posição de crítica à ação do governo, atitude que não nos corresponde”. Dizem ainda os bispos que o fracasso do governo militar levaria o país “com muita possibilidade ao marxismo, e por isso acompanhamos o atual processo de reorganização do país, empreendido e encabeçado pelas Forças Armadas, com compreensão, e a seu tempo com adesão e aceitação”.
 
 
Vale lembrar que não diferente do clero argentino, o clero brasileiro também empreendeu perseguição aos elementos progressistas dentro da igreja. O Grande Don Hélder Câmara teve sua vida eclesiástica resumida ao ostracismo, foi impedido de viajar ao exterior para conferências, foi proibido de lecionar em seminários e viu as comunidades de base de sua diocese enfraquecerem. Tão execrável quanto relegar um clérigo ao obscurantismo, é o silêncio tácito à tortura de padres, como Leonardo Boff, Frei Betto e Frei Tito. Boff e Betto sobreviveram ao terrorismo de estado e mantém seu ativismo. Frei Tito, chagado pela intolerância do seu meio, suicidou-se no exílio.
 
 
E mesmo com o peso dessas acusações, de uma postura de total desprezo pela vida daqueles clérigos perseguidos, toda a história pregressa do papa Francisco, aos olhos do mundo, vão virando não mais que uma polêmica nota de rodapé na biografia do sumo-pontífice. Parece que a grandeza do cargo o escusa de qualquer falta no passado. Afinal, é primeiro papa sul-americano, um continente devastado pela pobreza. É o papa que não adere aos protocolos pontificiais; é o papa que usa um crucifixo de aço; é o papa cujo anel é somente folheado a ouro; é o papa que anda de ônibus; é o papa que gosta de tango e torce para um time de futebol. A construção da imagem do papa Francisco é tão canhestra, se utiliza de argumentos tão forçados, que fica impossível não perceber o quanto a mídia tradicional se compromete na defesa do indefensável. Utilizam-se inclusive da imagem de Francisco Jalics, dizendo que o clérigo atualmente está em paz com o novo papa. O que não passa pela análise dos jornalistas é que se Jalics perdoou mesmo o papa Francisco, tal atitude só enaltece o caráter de Jalics em detrimento de qualquer mérito do papa Francisco.
 
 
Fica portanto muito evidente o que se pode esperar desse novo pontificado. A Igreja Católica e o seu pontificado buscam fortalecer-se como poder político, promovendo os interesses da classe que os sustenta. O diálogo interreligioso, efêmero durante todo o pontificado de Bento XVI, se não continuar estagnado como está, corre o iminente risco de corroer. Mesmo provada a importância da mulher em nossa sociedade, e contrariando a tendência de alguns grupos cristãos, o sacerdócio feminino será sempre um absurdo. O celibato – uma castração consentida da sexualidade, e que pode ser a resposta para os escândalos de pedofilia que assolam o clero católico – não terá a abordagem merecida. As pesquisas com células-tronco,  uma esperança concreta para quem sofre de doenças crônicas do cérebro, do coração, ou para os que estão paralisados, será sempre uma afronta à vida. A seção de direitos civis a homossexuais será sempre vista como uma outorga de privilégios especiais; e luta pela erradicação da pobreza extrema será sempre vista como a busca impossível do paraíso na terra. Mesmo promovendo um discurso de bondade e compaixão, a Igreja Católica e o papado caminham a passos largos na contramão do seu tempo, aprofundando a irrelevância com que certos setores da sociedade os enxergam.
 

Um discurso de ódio impregna toda a cristandade, desde católicos a evangélicos. O silêncio do clero cristão a esse ódio significa apoio incondicional ao ódio contra a luta das minorias e a plena democracia. Esquecem-se da prédica de Jesus, que disse que os humildes herdarão o Reino de Deus, que os que promovem a paz serão chamados Filhos de Deus, e que os que tem fome e sede de justiça serão satisfeitos. Envergonham, portanto, o seu Deus e o seu Cristo.

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Nota do autor: tive que excluir o penúltimo parágrafo da verão original do texto, pois ele citava um site de humor da internet. Aos que leram a primeira versão, minhas desculpas. Alguns pensam que emular a linguagem de certos grupos, com intuito satírico, é uma forma de criticar as reações extremadas. Eu não vejo utilidade nesse tipo de humor, porque a maioria dos que se prestam a ele não passam o mínimo de ironia no que publicam. Simplesmente repetem a retórica, sem nenhum filtro humorístico, porque acham que a retórica em si é uma piada pronta. Se soubessem quantos pela rede realmente acreditam que a Igreja Católica é a grande combatente do comunismo, ou que os militares ditadores da América Latina prestaram um grande serviço aos seus países, talvez repensassem sua estratégia de humor.

quarta-feira, março 13, 2013

Divagações sobre o Conclave 2013

Poucos se dão conta, mas o Conclave, a eleição de um papa, é um momento histórico único. Os que não se importam, enxergam na cerimônia um espetáculo medieval sem sentido. Pena não perceberem que um Conclave pode mudar toda a perspectiva de uma parte da cristandade. Especialmente nesse Conclave, convocado a partir da renúncia do sumo pontífice e não de sua morte, como costumeiramente acontece. Os recentes escândalos de pedofilia entre padres, de corrupção nas instituições vaticanas, e a inabilidade dos líderes católicos de lidar com essas e outras questões relevantes ao mundo contemporâneo, foram cruciais para que a Igreja Católica perdesse a credibilidade e a relevância que possuia em seu rebanho. Nesse ponto, a crise pela qual passa o catolicismo é a crise pela qual passa toda a tradição cristã ocidental.

É nesse momento histórico que os cardeais da Igreja Católica se reúnem para eleger um novo pontífice. Na busca por quem os guie em águas violentas e desconhecidas, talvez se perguntem se há alguém capaz de vencer o ceticismo geral quanto à punição de padres pedófilos. Ou se será mesmo preciso desarmar a tradição e o dogma, se o objetivo for voltar a ter relevância na vida das pessoas. Infelizmente, não cabe aos fiéis essa tão esperada mudança de paradigma da fé. Isso está a cargo da vontade dos cardeais eleitores e de quem eles elegerem como futuro papa. A nós cabe, de alguma forma, tentar entender os meandros da política vaticana. Esse é o exercício que faremos aqui.

O último papa renunciou porque, segundo o próprio, “as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino”. A atual situação da Igreja Católica, cercada de escândalos e desconfiança, pede que o próximo papado seja mais longo que o anterior, que durou apenas 8 anos. O próprio papa Bento XVI recomendou que o próximo pontífice seja forte e jovem, para então suportar as pressões do cargo. Portanto, a eleição de qualquer cardeal acima de 75 anos inviabiliza um governo pontifício de longo prazo.
 
Já nesse ponto podemos descartar dois candidatos italianos que são tidos como certeiros: o Secretário de Estado e Camerlengo Tarcisio Bertone e o prefeito emérito para a Congregação dos Bispos Giovanni Batistta Re. Eu ainda me arriscaria a incluir nessa lista o nome de Angelo Scola, Arcebispo de Milão, e o que todos consideram o mais provável eleito. Com 71 anos, ele já pode ser considerado velho e no limite para assumir o pontificado. Se ele não for eleito agora, não será mais. E três brasileiros completam essa lista: Don Cláudio Hummes, Don Geraldo Magella Agnelo e Don Raymundo Damasceno.

Passado o escrutínio da idade, passamos ao peso do cargo. Bento XVI foi eleito principalmente pelo peso político do cargo que exercia na Cúria. O então cardeal Ratzinger, um religioso eloquente, culto, e por assim dizer “acadêmico”, era prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé – o antigo Santo Ofício. Credita-se a ele muito da intolerância aos bispos e padres adeptos da Teologia da Libertação. Mas para além das posições firmes, o cardeal Ratzinger é muito responsável por formatar a atual doutrina da Igreja Católica. Uma igreja que busca relevância no mundo atual, mas que não quer perder o arcabouço de suas tradições.

Tendo isso em mente, é lógico concluir que um cardeal inserido na Cúria e nos meandros políticos do Vaticano fortalece o caráter moderador dos dois últimos pontificados. Por esse ângulo, nomes mais interessantes que os principais papáveis se destacam. Três são italianos: Mauro Piacenza, prefeito para a congregação do clero; Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura; Giuseppe Versaldi, prefeito da Secretaria de Assuntos Econômicos da Santa Sé. Para mim, esses são os candidatos italianos mais fortes. Porém, uma igreja que se intitula universal, não pode esquecer a maior representatividade do seu rebanho, que está nas Américas. Nesse sentido, ganham força os nomes do canadense Marc Ouellet, prefeito para a congregação dos bispos, e do brasileiro Don João Braz de Aviz, prefeito para a congregação das instituições monásticas. Também concorre com força o ganês Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício para Justiça e Paz. Se eu tivesse que focar minha atenção em um grupo de cardeais, seria nesses sete.

Mas também é impossível negar que existem, digamos, “talentos” fora da burocracia vaticana. De certa forma, se os cardeais eleitores estiverem buscando alguém sem vícios, sem compromissos políticos com quem quer que seja, será nesses outros que depositarão o seu voto. Aqui, quatro nomes se destacam com força: o austríaco Christoph Schönborn, arcebispo de Viena; os americanos Sean Patrick O’Malley, arcebispo de Boston, e Timothy Dolan, arcebispo de Nova York; e o brasileiro Don Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo. Dos quatro, o cardeal Schönborn é disparado o candidato mais óbvio. É um teólogo erudito, conservador com as doutrinas da Igreja, mas mantém diálogo aberto e frutífero com correntes progressistas do clero austríaco. É um candidato que, segundo as expectativas de Bento XVI, pode trazer equilíbrio entre as diversas correntes teológicas da Cúria. O cardeal O’Malley tem a seu favor uma política de tolerância zero com os casos de pedofilia na diocese de Boston. Sua eleição pode significar que, pelo menos esse assunto, a Igreja Católica combaterá sem medir esforços. O cardeal Dolan é considerado uma “estrela em ascenção”, segundo a CNN. É um clérigo midiático: se comunica bem com a imprensa, com os fiéis e usa as tecnologias do momento a seu favor – é um dos poucos cardeais que possui um blog e contas no twitter e facebook. Um papa carismático, aos moldes de João Paulo II, renovaria a imagem sisuda do pontificado. No entanto, a atuação do cardeal Dolan para punir padres pedófilos da diocese de Milwalkee foi muito criticada. Resta saber se isso afeta sua imagem como papável. Por fim, Don Odilo Scherer é um clérigo ultra-conservador, que batalha contra a união civil homoafetiva, a ordenação feminina, e métodos contraceptivos. Sua eleiçào seria um desastre para a longo prazo para a Igreja Católica - pois paralisaria qualquer diálogo interreligioso ou com minorias - e para o Brasil - pois dificilmente sua política conservadora não ressoaria nas esferas políticas nacionais.

Mesmo analizando todo esse quebra-cabeça político-ideológico, é impossível saber o que realmente pensam os cardeais eleitores, e quem será o provavel eleito dentro desse panorama intrincado. No entanto, dentro das diversas possibilidades, farei uma lista provável dos papáveis mais cotados, dentro de alguns cenários possíveis.

-Cenário mais provável, caso a Igreja Católica opte por uma continuidade da linha moderada de João Paulo II e Bento XVI, mantendo o diálogo interreligioso no atual estágio, mas sem avançar significativamente nas questões sociais, no combate a pedofilia, na união civil homoafetiva, na pesquisa de células-tronco e outros temas:
1) Angelo Scola, Arcebispo de Milão.
2) Mauro Piacenza, prefeito para a Congregação do Clero
3) Don João Braz de Aviz, prefeito para a Congregação das Instituições Monásticas
4) Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura
5) Timothy Dolan, Arcebispo de Nova York

-Outro cenário possível. Caso a Igreja Católica opte por um papa inserido na Cúria, capaz de manter a linha moderada, mantendo o diálogo interreligioso no atual estágio, mas sem avançar significativamente nas questões sociais, no combate a pedofilia, na união civil homoafetiva, na pesquisa de células-tronco e outros temas:
1) Mauro Piacenza, prefeito para a Congregação do Clero
2) Don João Braz de Aviz, prefeito para a Congregação das Instituições Monásticas
3) Marc Ouellet, prefeito para a Congregação dos Bispos
4) Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura
5) Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício para Justiça e Paz

-Caso a Igreja Católica opte por um papa com perfil escolástico, catequizador e com leve tendência reformadora, mantendo o diálogo interreligioso no atual estágio, mas sem avançar significativamente nas questões sociais, no combate a pedofilia, na união civil homoafetiva, na pesquisa de células-tronco e outros temas:
1) Christoph Schönborn, Arcebispo de Viena
2) Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura
3) Mauro Piacenza, prefeito para a Congregação do Clero
4) Marc Ouellet, prefeito para a Congregação dos Bispos
5) Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício para Justiça e Paz

-Cenário pouco provável. Caso a Igreja Católica opte por uma guinada conservadora, que fortaleça suas tradições, doutrinas e dogmas, mesmo comprometendo o efêmero diálogo interreligioso:
1) Don Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo

-Cenário improvável. Caso a Igreja Católica opte por dar voz e representatividade às minorias, aprofundando o diálogo interreligioso, as questões sociais, e com esperanças de iniciar diálogo com as minorias.
1) Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício para Justiça e Paz

segunda-feira, julho 21, 2008

Resenha: Wagner: The Great Operas of the Bayreuth Festival

O site especializado Allmusic anunciou no mês passado um pacote de proporções épicas. O lançamento da caixa Wagner: The Great Operas of the Bayreuth Festival, pelo selo Decca Classics. Além de títulos correntes do seu catálogo, a Decca surpreende pela inclusão de títulos de outras gravadoras, e de alguns fora de catálogo há décadas.

A caixa em si deve ser celebrada como um grande acontecimento. Compilações das óperas de Wagner em um único set de discos eram comuns na época do vinil, sendo a série integral do Anel dos Nibelungos o carro chefe. A própria Decca e a Phillips Classical dispõem dessas integrais, a primeira com Georg Solti e a segunda com Karl Böhm. A prática ainda se mantém com o advento do CD, mas as gravadoras preferem manter em circulação as gravações que tem mais procura. É muito mais comum encontrar nas lojas a gravação da Valquíria com Karl Böhm, por exemplo, do que a caixa com o Anel completo. Também devido ao custo de produção, essas integrais são muito raras.


O diferencial dessa caixa, no entanto, é expandir o set não só incluindo o ciclo do Anel dos Nibelungos, mas também as demais óperas do repertório do Festival de Bayreuth. Com isso, a seleção inclui as quatro óperas do Anel (O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculos dos Deuses), e as demais, a saber: O Navio Fantasma, Tannhäuser, Lohengrin, Tristão e Isolda, Os Mestres Cantores de Nuremberg e Parsifal. São ao todo mais de 600 horas de música, divididas em 33 CDs.


Outro diferencial é que a caixa reedita duas gravações fora de catálogo já há algum tempo, que são O Navio Fantasma e Lohengrin, regidas por Wolfgang Sawallisch. As duas gravações eram editadas pela Phillips Classical, que as deixou de fora quando lançou a coletânea Richard Wagner Edition, nos anos 90. As duas gravações voltam ao mercado em grande estilo. Surpreendente, dizendo o mínimo, é o lançamento de Tristão e Isolda, regido por Karl Böhm, sob a marca Decca. Essa gravação é tradicionalmente publicada pelo selo Deutsche Grammophon, que a fez mundialmente reconhecida. Algum interesse ainda indefinido deve mover a Universal Music Group, que é o grupo que controla as três gravadoras citadas aqui.


No site da Amazon, o lançamento dessa caixa vem sendo considerado a jogada de marketing mais audaciosa da Decca. Inegavelmente, a Decca ganha valiosos pontos com melômanos ao redor do mundo. Abaixo, a ficha técnica das gravações disponíveis nessa caixa.


O NAVIO FANTASMA (Der fliegende Holländer)
Anja Silja, Fritz Uhl, Franz Crass, Josef Greindl. Coro e Orquestra do Festival de Bayreuth. Wolfgang Sawallisch, regente.


TANNHÄUSER
Anja Silja, Grace Bumbry, Wolfgang Windgassen, Eberhard Wächter, Josef Greindl. Coro e Orquestra do Festival de Bayreuth. Wolfgang Sawallisch, regent.


LOHENGRIN
Anja Silja, Astrid Varnay, Jess Thomas, Ramón Vinay. Coro e Orquestra do Festival de Bayreth. Wolfgang Sawallisch, regente.


TRISTÃO E ISOLDA (Tristan und Isolde)
Birgit Nilsson, Christa Ludwig, Wolfgang Windgassen, Eberhard Wächter, Maati Talvela. Coro e Orquestra do Festival de Bayreuth. Karl Böhm, regent.


OS MESTRES CANTORES DE NUREMBERG (Die Meistersinger Von Nürnberg)
Hannelore Bode, Jean Cox, Bernd Weikl, Karl Ridderbusch, Hans Sotin. Coro e Orquestra do Festival de Bayreuth. Silvio Varviso, regent.


O OURO DO RENO (Das Rheingold)
Annelies Burmeister, Anja Silja, Wolfgang Windgassen, Theo Adam, Gustav Neidlinger, Maati Talvela. Orquestra do Festival de Bayreuth. Karl Böhm, regente.


A VALQUÍRIA (Die Walküre)
Birgit Nilsson, Leonie Risanek, Annelies Burmeister, James King, Theo Adam, Karl Ridderbusch. Orquestra do Festival de Bayreuth. Karl Böhm, regente.


SIEGFRIED
Wolfgang Windgassen, Erwin Wohlfahrt, Theo Adam, Birgit Nilsson. Orquestra do Festival de Bayreth. Karl Böhm, regente.


O CREPÚSCULO DOS DEUSES (Die Götterdämerung)
Birgit Nilsson, Martha Mödl, Wolfgang Windgassen, Josef Greindl, Thomas Stewart. Coro e Orquestra do Festival de Bayreuth. Karl Böhm, regente.


PARSIFAL
Peter Hoffmann, Waltraud Meier, Hans Sotin, Simon Estes, Matti Salminen. Coro e Orquestra do Festival de Bayreuth. James Levine, regente.

sexta-feira, maio 23, 2008

Um Theatro pra chamar de meu

Imagine-se sozinho contemplando os corredores do Museu Imperial, em Petrópolis. Não se ouve o burburinho dos visitantes, nem o arrastar das pantufas no assoalho de madeira, muito menos há o controle quase intransigente da segurança. São só você e quase 200 anos de história em cada sala. Irresistível não correr as mãos pela mobília, passar demoradamente por cada cômodo e esmiuçar os detalhes de cada peça, tendo a sensação de que até o granito do chão é tão vivo quanto você.

Foi essa sensação de pertencimento que se apoderou de mim ontem (14 de maio), no Theatro Municipal do Rio, durante o ensaio da ópera Fidelio, de Beethoven. Acostumado a ver aqueles corredores sempre cheios durante os intervalos dos espetáculos, meu primeiro sentimento foi de certa desolação ao vê-los tão imponentes e silenciosos. Em contraste, a ação da noite estava toda concentrada nos bastidores, onde o coro e os solistas se preparavam para entrar no palco, enquanto a orquestra ocupava seu tradicional fosso. E de um lado para o outro via-se o pessoal da técnica ajeitando os últimos detalhes da produção.

A priori, alguém pode sentir-se oprimido diante dessa situação. Senti-me um pouco assim no início, mesmo conhecendo algumas pessoas do coro do Theatro, justamente as que me convidaram a assistir o ensaio. Não fiquei de todo deslocado, não só pela companhia dos amigos que me deixou à vontade; mas foi, acima de tudo, pelo desprendimento da formalidade. Olhei para os lados e não vi as distintas senhoras com as quais eu tenho o cuidado de não esbarrar. Tateei os bolsos e não encontrei o ingresso contendo o exato lugar onde eu deveria me sentar. De repente, a imensidão do Theatro foi cabendo no meu campo de visão, e a sensação de opressão deu lugar a uma sensação de aconchego.

Percebi então que eu tinha todo aquele espaço para o meu bel prazer, e que eu poderia desfrutá-lo de forma mais íntima, longe da pompa dos concertos e das óperas. Eu não estava mais no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Parecia mais a sala da minha casa.

Eu gostaria que o carioca tivesse essa simpatia pelo Theatro. Ele não é o grande, imponente e todo-poderoso Theatro Municipal. Nunca foi. Na verdade, ele é a casa de todo aquele que ama, vive e experimenta música.

Detalhes sobre a nova produção de Fidelio, no TMRJ, em beve.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Uma homenagem a Luciano Pavarotti


Quando Luciano Pavarotti iniciou sua carreira, em 1961, a ópera italiana passava por uma entre-safra. Deu um lado, os grandes nomes do pós-2ª Guerra já começavam a sentir o peso do tempo e se preparavam para encerrar a carreira. Do outro, cantores como Mario del Monaco, Franco Corelli e Joan Sutherland se consolidavam como os grandes nomes da cena lírica, na segunda metade do século XX. Mas o mundo estava mudando. Um mundo curtido de duas guerras, vivendo a iminência de uma terceira.

Todos lembram de Pavarotti como o tenor que ajudou a popularizar a ópera. Existe certa verdade nisso, mas não totalmente. Vamos lembrar que o mundo na década de 1960, curtido de duas guerras e vivendo a iminência de uma terceira, sofria transformações radicais: direitos civis, liberdade sexual, revolução tecnológica e científica. Era um mundo, como ainda é hoje, metódico, frio, planificado. Só que naquela época, diferentemente de hoje, as pessoas pensavam coletivamente, já os grandes anseios da época requeriam ações coletivas. No fim , não sobrava tempo para uma experiência pessoal e subjetiva, como é ouvir música clássica.

Pavarotti tinha um grande talento para o canto. Era uma voz natural, bruta, que só se encontra nos bons cantores italianos. Parece uma marca registrada da península. Quem conhece o Pavarotti dos Três Tenores, ou da série Pavarotti and Friends, conhece mais um vulto do que propriamente um cantor. Um ícone que vivia muito mais do prestígio que construíra, do que de sua arte principal.

Mas não é surpresa que Pavarotti só tenha alcançado o grande público no fim de sua carreira. O que começou nos anos 60, naquele mundo curtido de duas guerras, sem tempo para uma experiência subjetiva, foi o aperfeiçoamento de uma nova linguagem que levasse o público de volta a uma experiência pessoal com a música clássica. A década de 60 foi onde se consolidou a mídia de massa para o público de música clássica. Gravações em disco, transmissões radiofônicas de alta qualidade, turnês mundiais. Antes que se cunhasse o termo “globalização”, a música clássica já vivia um trânsito constante de artistas apresentando-se ao redor do mundo.

Muitos podem creditar (o início d)a popularização da música clássica a Pavarotti. Por desconhecimento, talvez. Junto dele estão nomes como Plácido Domingo, José Carreras, Montserrat Caballé, Mirella Freni, e muitos, muitos outros que não podem ser esquecidos. Essa geração foi tão fecunda que livrou a música clássica de um hiato muito maior do que o que ela passa hoje.

O que faz a morte de Pavarotti ser tão lamentada? Morreu um grande artista, que também era um ícone pop, financiador de causas nobres. Mas sua morte é início do fim de uma geração gloriosa, que semeou muito pouco. Bons cantores surgiram nas décadas de 80 e 90, mas a maioria deles teve ascensão e queda meteórica. A carreira de Pavarotti durou até 2001, aos trancos. Foi quando diagnosticaram o câncer que o vitimou. Bem como a voz, já bem deteriorada, a doença foi decisiva para encerrar uma carreira vitoriosa, mas que só vinha recebendo críticas. Mas nada que abalasse seu prestigio e respeitabilidade.

A morte de Pavarotti traz consigo uma sensação de abandono. O que será da ópera hoje, quando poucos são os (bons) cantores e grande é a necessidade deles? Muitos dizem que a ópera, e a música clássica em geral, morreram há muito tempo. Eu ainda confio na marcha do tempo, embora a esperança seja pouca. Mas espero que numa próxima leva, o tempo nos traga artistas da qual nos orgulhamos.

Mille grazie per tutti, Pava. Restate in pace.

segunda-feira, setembro 24, 2007

NY Times: Música simples forma fé genuína?

Por Bernard Holland

Uma cerimônia na Catedral de São Patrício, no dia 11 de setembro, ofereceu-nos um pouco de música patriótica e alguns trechos dos clássicos. Porém, todo o resto me fez pensar se eu deveria ouvir como crítico ou como cristão. Muito da música litúrgica dos nossos dias pede para que você escolha uma dessas posições.

Com todo o seu bater de palmas, letras inspiratórias e caráter despretensioso, essa música é muito diferente da tradição iniciada com o cantochão, passando por Josquin e Palestrina, depois por Mozart e Beethoven, e finalmente chegando até Messiaen e Britten. Sem a igreja para inspirar – para não dizer financiar – grandes compositores, faltaria uma enorme lacuna na história da música.

Beleza musical, elegância nas harmonias, construção sonora e instigante originalidade eram os requisitos que chamavam atenção do hesitante fiel. A música, como a arquitetura e a pintura, representavam o céu na terra, algo que era distante e intangível; uma propaganda do paraíso, mesmo que longe do alcance das mãos.

Os hinos neo-Eduardianos e as elaborações culturais etno-populares usados no serviço em São Patrício, por outro lado, levam-nos a inferir que a Missa em Si Menor, de Bach, e A Criação, de Haydn, são peças irreligiosas; uma sedução que captura os sentidos e leva o coração para longe da verdadeira comunhão com Deus. Música simples gera fé genuína? Teria Belzebu usado a arte musical aos seus propósitos?

Música sofisticada que não alcança diretamente seus ouvintes – processo que independe da resposta dos ouvintes – carrega em si as sementes de sua eventual irrelevância. Uma razão para o ostracismo da música clássica hoje está nas várias gerações de compositores que exigiram que o público os compreendessem, ao invés do contrário.

Porém, música escrita somente visando o conforto da platéia é igualmente irrelevante. Apertar botões étnicos como forma de acesso fácil à atenção do fiel é pura propaganda. A fácil familiaridade age como o pé do vendedor ambulante, que impede que você feche a porta. É a brecha para começar a vender um produto.

O cristão pode argumentar corretamente que a música é só mais uma ferramenta evangelística, que tanto acompanha a conversão do arrependido, quanto inspira a renovação da fé. Música interessante distrai o fiel, assim é a linha geral de raciocínio. Música interessante não nos instrui a sermos bons ou não sermos maus. Ela serve para ser admirada somente. Juntar grande música e fé genuína acontece, mas com dificuldade.

O Requiem de Verdi, com sua descrição visceral do temor humano diante do Juízo Final, chega perto de satisfazer tanto o crítico quanto o cristão. Minha escolha para a música que tanto mexe com os sentidos, quanto dá ao ouvinte o apropriado temor de Deus, é o gospel cantado nas igrejas negras. Os sons são maravilhosos e todos contribuem para a sua formação.

A igreja tem razão em temer grande música, daí o esforço em retomar nossa atenção através de adaptações rasteiras dos hinários, das missas em latim e do Livro de Oração Comum, da Igreja Anglicana. Eu sou um pequeno exemplo disso, que passei as manhãs de domingo da minha infância na Igreja Episcopal, deixando que a imaginação fértil de Thomas Cranmer, e seu lânguido responsório litúrgico, fizessem parte das minhas orações, sem nenhum pensamento direto a Deus.

Uma razão para que música menos importante seja composta para igrejas é que os compositores têm outras coisas em mente. A primeira delas é sobreviver. As igrejas eram os centros da vida, e também centros da riqueza e do poder. Compositores disputavam o mecenato das paróquias, numa época em que concertos públicos mal existiam. Hoje, o dinheiro que circula para os compositores vem dos círculos seculares.

O declínio da música clássica e o declínio da Igreja Católica têm coisas em comum. As platéias de concertos diminuem e envelhecem como a audiência das igrejas, que é cada vez menor. E os movimentos evangélicos crescem exponencialmente na América Latina, antes considerada sólido reduto católico. Não existindo mais a divisão entre platéia (igreja) e artista (clero), o rock, o rhythm and blues e outros ritmos envolvem de tal modo o ouvinte que ele se torna um instrumento adicional à música, com suas mais diversas reações.

Durante uma entrevista para a televisão, há não muito tempo atrás, a romancista Margareth Atwood deu uma explicação muito boa de por que a idéia de um Deus mais humanizado atrai mais as pessoas. “Elas se sentem solitárias”, disse. “Ao olharem para o universo, as pessoas não querem saber de rochas e gases. Elas querem alguém com quem conversar”.

Vamos, então, voltar ao início e nos aproximar de Deus como espectadores, aceitando uma distante promessa de descanso eterno recheada de Mozart e Michelangelo? Ou trabalhamos o assunto de maneira mais coletiva, colocando as barbas do Criador de molho?

As belezas ritualísticas de Católicos, Episcopalistas e Luteranos podem não estar em alta como eles gostariam. Mas a história trabalha em ciclos, e eles podem voltar a ter seus dias de glória.

Enquanto isso, pegue a sua guitarra e bata um bocado de palmas.


HOLLAND, Bernard. Does simple music form simple faith? The New York Times on the Web, sessão Music. Extraído de http://www.nytimes.com, acessado em 24 de setembro de 2007.

terça-feira, junho 05, 2007

Série Compositores Brasileiros: Radamés Gnatalli (tb demorou, mas saiu...)


2006 foi o Ano Mozart. Se não fosse a grandeza do “milagre de Salzburgo”, comemoraríamos com mais vigor o centenário de nascimento de Radamés Gnatalli (1906-1988). Mas não se preocupem, o centenário de Gnatalli não passou em branco. Foi comemorado com um concerto especial na sala Cecília Meirelles, durante o mês de julho. Não ficou sabendo? Pois é, nem eu...

Os intelectualóides que tomam conta de nossas programações culturais só conseguem me deixar mais nervoso com esse tipo de atitude. Não fizeram quase nada pro Mozart, e menos ainda pro Gnatalli. Eu ainda tenho um treco por causa desses imbecis. Respirei fundo, agora segue o texto.

Gnatalli, como sugere o nome, é filho de imigrantes italianos e nasceu em Porto Alegre. Começou seus estudos em música aos 14 anos, no Conservatório da capital gaúcha. Aos 19 já estava no Rio dando concertos e recebendo elogios da crítica. Mas a vida de concertista era difícil, e por isso tocava em cinemas e bailes. Desde quando começou suas atividades no Rio, Gnatalli sempre colaborou com os grandes de nossa música.

Não conheço muito de sua obra, mas Gnatalli é sempre citado como um excelente maestro e arranjador. Suas composições, dizem os críticos, são inovadoras e arrojadas. E acredito neles. Imerso no caldeirão modernista, Gnatalli absorvia bem o Jazz, trabalhava muito bem o choro, e dedicava-se com afinco ao erudito. Era um músico que atuava em várias frentes e dominava todas elas.

É um descaso dos nossos intelectualóides deixar passar o aniversário desse nosso patrimônio. Sinto palpitações, é melhor parar por aqui. A Biblioteca Nacional criou um portal especial sobre Gnatalli, com biografia e músicas digitalizadas. Aproveitem, pois vai que fecham esse negócio. Acessem em http://www.bn.br/fbn/musica/radames/radames.htm

quinta-feira, maio 17, 2007

Uma homenagem a Mstislav Rostropovich


Foi exatamente na noite do dia 18 de março de 2002, segundo registra o ingresso do concerto na sala Cecília Meirelles. Estávamos no hall principal da sala, meu amigo Ivan e eu, durante o intervalo. Surge de repente uma comitiva de umas seis pessoas, e no meio delas um senhor já idoso, de braços com uma senhora, quem sabe a esposa. Atrás da comitiva, um outro senhor, este de meia idade, anunciava com empolgação: “É o Maestro Rostropovich! É o Maestro Rostropovich!”. Ao reconhecê-lo, o público aplaudiu carinhosamente. Eu e meu amigo, amantes inveterados de ópera, pensávamos somente em reconhecer a senhora de braços dados com ele: “Será que aquela é a Galina Vishnevskaya?!”

Essa é o único fato que me comove a escrever sobre a morte do violoncelista russo Mstislav Rostropovich. Nunca ouvi nenhuma de suas gravações e nunca li nenhuma crítica de seu trabalho. E o pouco que sei de sua biografia está muito ligado à Galina Vishnevskaya, esposa e grande soprano russa.

Durante aquele mês de março de 2002, Rostropovich veio ao Brasil para reger o balé Romeu e Julieta, de Prokofiev, numa produção elogiadíssima do Teatro Municipal. Durante uma entrevista, Rostropovich disse que a orquestra do Theatro era de alto nível, e que poderia tocar qualquer coisa, de qualquer compositor. Gentileza? Incentivo? Ironia? Não sei.

É estranho pensar que, apesar de escrever e emitir opinião sobre ele, o sr. Rostropovich me é, com igual equilíbrio nas palavras, um ilustre desconhecido.

segunda-feira, março 05, 2007

Wagner, o traveco?!

Carta sugere que Wagner gostava de se vestir de mulher
Plantão Publicada em 02/03/2007 às 19h08m
Eduardo Fradkin - O Globo

RIO - Uma carta inédita do sisudo compositor de óperas Richard Wagner (1813-1883) para um costureiro italiano, encomendando roupas femininas com uma impressionante profusão de detalhes - relativos a corpetes, babados, anáguas, anquinhas, etc. - levantou, na Inglaterra, a hipótese de ele gostar de se travestir.


(...)

O fato que reforça a teoria de que as roupas encomendadas eram para o próprio Wagner é que sua esposa Cosima jamais anotou em seu diário tê-las recebido.



Ah, legal! Quer dizer que se Frau Wagner não se acusar do além-túmulo e disser que as calçolas eram dela, o pobre Richard Wagner vai levar a fama de traveco? Ufa, então acho que fiz bem em jogar fora um a cueca rosa que eu tinha na gaveta.

Triste esse nosso tempo, quando um grande compositor não é mais lembrado por suas melodias.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Uma homenagem a Arturo Toscanini (porque eu sou fã de regentes tiranos!)

Já há muito tempo ouço que a época dos regentes tiranos acabou. Realmente, com a morte de Herbert von Karajan em 1989, as orquestras não andam tolerantes com o pulso firme de alguns regentes. O caso mais recente foi o de Riccardo Muti, citado no último post, que foi chutado do pódio do Scala pela pressão da orquestra, que não suportava mais a grandiosidade de seu ego.

Concordo com os que dizem que ter um grande talento não é pretexto para ter uma grande empáfia. Mas eu vejo a questão muito além de um conflito de egos (porque o músico é a mais perfeita definição freudiana do ego). O regente deixou de ser chef d’orchestre e tornou-se colaborador com o músico. E por mais reacionário que possa parecer ser regente é comandar, é ter poder, e se preciso for, é ser tirano também. Muitos regentes hoje não têm consciência disso, e as orquestras também não deixam os regentes terem consciência disso. Mas antigamente... Quanta diferença.

Arturo Toscanini (1857-1957) não era simplesmente tirano. Era despótico, temperamental e explosivo. Gritava com músicos e cantores, não se satisfazia facilmente com a sonoridade da orquestra, e era capaz de grosserias estúpidas. E a tirania de Toscanini é tão superlativa quanto sua grandeza e genialidade no pódio.

Em qualquer gravação de Toscanini fica evidente, acima de tudo, sua fidelidade à partitura. Toscanini obedecia religiosamente os tempos, as marcações, ou qualquer anotação que o compositor tivesse feito na partitura. Mas ele está longe de ser um simples repetidor. Toscanini preocupava-se com as intensões do compositor, e dissecava cada passagem com precisão cirúrgica. Cada marcação, cada entrada, cada corte era executado sem atropelos. Nenhuma melodia fica mais evidente do que outra, nenhuma sessão da orquestra aparece mais do que outra. E a energia que ele impunha em tudo o que regia. É curioso ouvir suas gravações também para ouvi-lo em ação, literalmente. Em várias delas, podemos ouvir Toscanini, por exemplo, dando instruções à orquestra, ou cantarolando a melodia em execução.

Toscanini costumava dizer: “na política, seja democrático; mas na arte, seja conservador”. Ao ouvi-lo, nada de sua tirania ou maus modos fica evidente. O que fica evidente é a música que ele executa e o quão poderosa ela é.

Sem dúvida nenhuma, Toscanini é o maior regente de todos os tempos. Seu legado para a música é gigantesco e dele somos eternos devedores. Curioso é que, junto dele, tiranos contumazes também são chamados de “gênio”: Hans Knappertsbusch, Otto Klemperer, Herbert von Karajan, Sergiu Celibidache. Inconscientemente, adoraríamos que esses tiranos continuassem a governar a música.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Em alta para 2007: Daniel Barenboim

Meu primeiro post do ano é profético, pois se 2006 foi o Ano Mozart, ouso dizer que 2007 será o Ano Daniel Barenboim. Nenhuma personalidade da música erudita contabilizou muitas manchetes, ou sofreu tanta especulação quanto ele em 2006, que começará este ano com uma responsabilidade: a de ser o regente mais influente da atualidade.

Creio que este seja o ano-chave para a carreira de Barenboim como regente. Apesar de sua aposentadoria do cargo de diretor artístico da Orquestra Sinfônica de Chicago, um outro cargo de muito mais peso o espera. Com a demissão forçada de Riccardo Muti, Barenboim foi convidado para ser o principal regente convidado do Teatro La Scala de Milão. E o que tudo indica é que a palavra “convidado” pode se tornar “titular”, e Barenboim assumiria a direção artística da mais tradicional casa de ópera do mundo. Para que se entenda a dimensão do cargo que Barenboim está para assumir, pense o seguinte: o La Scala está para a ópera, e para a música, assim como o Vaticano está para o Catolicismo.

Outro evento que colocou Barenboim em evidência para 2007 foi Lorin Maazel, diretor artístico e regente da Orquestra Filarmônica de NY, tê-lo apontado como seu preferido para sucedê-lo à frente dessa orquestra. Foi uma surpresa para todos, desde os músicos até a impressa especializada. Mas dizendo “lisonjeado”, Barenboim recusou o convite.

Pessoalmente, Barenboim nunca me chamou a atenção. Primeiro, porque ele é frequentemente comparado ao grande Wilhelm Furtwängler, o que é totalmente descabido e absurdo. Segundo, porque seu estilo é uma reminiscência da escola germânica do início do século XX, que presa por frases melódicas alongadas e tempos um pouco lentos, e que não me agrada. E mesmo essa reminiscência vira uma caricatura se comparada com o estilo de outros gigantes como Hans Knappertsbusch, Otto Klemperer ou até mesmo Erich Leinsdorf. E terceiro, porque Barenboim possuí concorrentes de peso no pódio, muito mais competentes e carismáticos.

Mas é justamente no vácuo do meu terceiro argumento de onde sai a atual proeminência de Barenboim. Pois seus grandes concorrentes no pódio estão deixando a atividade, ou por aposentadoria, ou por falecimento mesmo. Da safra de regentes que despontaram no pós-guerra, só Barenboim, Zubin Mehta e Seiji Ozawa estão em plena atividade. E desses três, que eu tenha conhecimento, Barenboim é o único que rege com frerqüencia na Europa e na América, desde concertos a óperas completas.

Se Barenboim levou tempo para despontar não foi por falta de currículo. Nascido na Argentina (estudei com um parente dele no 2° grau, inclusive), de família judia e radicado desde menino na Rússia, suas aulas de regência foram com Igor Markevitch, um grande regente russo. Nesse período conheceu Zubin Mehta, que também assistia às aulas de Markevitch. Seu primeiro grande trabalho foi a gravação integral dos concertos para piano e orquestra de Beethoven com Otto Klemperer, excelente regente alemão que era quase um tirano de tão exigente. Casado com o prodígio Jacqueline Du Pré (violoncelo), formou uma profunda parceria com músicos judeus proeminentes: Itzhak Perlman (violino), Pinchas Zukerman (violoncelo) e o amigo Zubin Mehta. A parceria e a amizade eram tão grandes que a trupe passou a ser conhecida como “Kosher Nostra”.

Desde 2003 o nome de Daniel Barenboim passou a soar mais forte no ‘métier’. E com polêmica. Convidado para reger a Filarmônica de Israel, Barenboim decidiu tocar a abertura da ópera “Os Mestres Cantores de Nuremberg”, de Richard Wagner. Execuções das obras de Wagner são um tabu em Israel por causa da propaganda nazista, e Barenboim teve que mudar o repertório do concerto. Mas no segundo dia de apresentações, sob protesto de alguns, a abertura foi tocada como bis ao final do concerto.

Nesse mesmo ano, a nossa Companhia das Letras lançou no Brasil seu livro “Paralelos e Paradoxos”, escrito em parceria com o crítico palestino Edward W. Said. Em pauta, música, cultura e o conflito árabe-israelense. Os paralelos que cruzam e os paradoxos que separam israelenses e palestinos. Nesse mesmo período, Barenboim formou a West-Eastern Divan Orchestra, um projeto que une jovens músicos dos dois lados. A orquestra já gravou um CD e dois DVDs, e sobrevive apesar de tudo. Recentemente, durante a guerra entre Israel e Líbano, cinco musicistas palestinos abandonaram a orquestra em protesto.


Vamos adimitir. Se comparadado com seus companheiros, Barenboim têm trabalhado demais, e por muito tempo. Ele merece a projeção que vem tendo. Que faça um bom trabalho, portanto!

sexta-feira, setembro 29, 2006

E a orquestra toca, ecoando os problemas do Iraque.

Edward Wong
Colaboração de Wisan A. Habib, de Bagdá e Daniel J. Wakin, de Nova York

A tarde começou com a Abertura 1812, de Tchaikovsky, a orquestra pulsando os acordes marciais pelo auditório, os trompetes, trombones e cordas juntos em um bombástico clímax. Mas o ambiente acalmou-se com uma peça chamada Requiem, escrita esse ano pelo maestro da orquestra. Um solo de violoncelo, lento, lamentoso e contundente, composto como uma elegia para seu país. As centenas de iraquianos e diplomatas ocidentais na platéia pareciam hipnotizados, bem como os guardas portando fuzis Kalashnikov.

“É como uma pessoa que está morrendo”, disse o regente Muhammad Amin Ezzat após o concerto, em clube a oeste de Bagdá. “Por algum tempo ele estava sorrindo. O coração ainda está batendo, mas respirar é difícil, falar é difícil, e ele está próximo da morte”. A mudança repentina entre o “triunfalismo” de Tchaikovsky para a peça de Ezzat reflete o atual estado do Iraque e de um de seus duradouros símbolos de unidade nacional: a Orquestra Sinfônica Nacional Iraquiana.

Por quase três anos de conflito, a orquestra batalhou levantando o moral do país e prestando socorro através da arte. Porém membros da orquestra descobrem que enquanto a arte pode, às vezes, trazer um alento à dura realidade, ela não se sustem como baluarte contra as mazelas do conflito.

Neste verão, quatro membros da orquestra fugiram para a Síria e Dubai, desfalcando a orquestra em dois violoncelistas, um oboísta e um violista. A orquestra conta com 59 musicistas, freqüentemente forçados a ensaiar sem eletricidade, devido a constantes blecautes. Os ensaios acontecem três vezes por semana, no antigo real salão de concertos, localizado no destruído centro histórico de Bagdá, e com guardas armados cercando o prédio. Os musicistas estão ficando sem palhetas e cordas, e poucas lojas de instrumentos permanecem abertas no Iraque, em parte porque as milícias islâmicas bombardearam várias. Eles também preocupam-se em não ofender os milicianos e os vizinhos.

“As circunstâncias afetam o nosso dia-a-dia”, disse Karim Wasfi, o diretor da orquestra e violoncelista. “Mas eu gosto de pensar que apesar das dificuldades e instabilidades, nós existimos, nós tocamos, nós damos esperança”.

A orquestra é uma das mais antigas da região, disse Wasfi. Sua fundação remonta a um quarteto de cordas formado em 1939. O primeiro agrupamento, conhecido como Filarmônica de Bagdá, tornou-se orquestra no início dos anos 50. Seu repertório consiste de compositores europeus, mas também exibe peças de seus membros, incluindo aqueles enraizados na tradição musical árabe.

Desde a invasão americana em 2003, a orquestra se apresentou nos Estados Unidos, Jordânia e Dubai, e se apresenta freqüentemente na região curda do Iraque. Fez sete concertos na última temporada, alguns patrocinados por uma companhia de telefonia móvel do Kuwait. A estréia dessa temporada está marcada para 1 de outubro, em um teatro no subúrbio de Bagdá. O governo paga aos musicistas de 140 a 620 dólares por mês.


Mesmo agora, em que o país se divide em disputas sectárias, a orquestra permanece como um espelho da etnicidade e religiosidade da sociedade iraquiana. Tocando lado a lado estão árabes sunitas e xiitas, curdos, cristãos, secularistas e até um membro da religião Mandeana, uma fé gnóstica que considera Adão e João Batista profetas.

Mas as esperanças nutridas após a queda de Saddam Hussein desapareceram. Naquele ano de 2003, a orquestra tocou no Kennedy Center, em Washington, onde na platéia estavam o Presidente Bush e o Secretário de Estado Colin Powell. Alguns membros foram convidados a visitar a Casa Branca. Agora Ali Khasaf, clarinetista, têm que ensaiar em um cômodo fechado em sua casa, correndo o risco de ofender os milicianos conservadores.

Khasaf mora em Sadr City, a cidadela da milícia comanda pelo clérigo xiita Muktada Al-Sadr. Algumas Sharías controladas por seguidores de Sadr consideram música erudita anti-islâmica, como fez o Taliban no Afeganistão. “Se os vizinhos ouvirem o som, eles podem não gostar”, disse Khasaf, membro da orquestra à 25 anos. “O público aqui não é como no resto do mundo”.

Khasaf não é o único membro de sua família na orquestra. Seu irmão mais velho toca , um mais novo é oboísta, e um sobrinho é trompetista. Khasaf começou a tocar clarinete em 1973, quando ingressou na banda do exército iraquiano. Seguiu os passos do irmão Mehdi, que entrou na banda dez anos antes. “Eu achei muito bonito, então decidi entrar”, disse. “Aprendemos com musicistas russos e alemães, enquanto estávamos no exército”.

Khasaf e seus famíliares têm que esconder seus instrumentos, mas ao menos eles podem praticar em casa. Não é o caso de Izzat Ghafouri Baban, trompetista curdo que mora, segundo o próprio, “em um lugar sujo”: o bairro de Shaab, também controlado pela milícia de Al-Sadr. “Eu não posso praticar em casa porque estou cercado de husseinianas”, disse Baban, referindo-se às mesquitas xiitas que honram o neto do profeta Maomé, considerado mártir. “Imagine se alguém sabe que há um músico em minha casa. Eles diriam que eu estou contra a religião”. Ele só consegue ensaiar chegando duas horas antes que seus colegas. “A única coisa que nos deixa contentes é quando nos revemos. É o melhor momento de nossas vidas”.

Ele disse que sempre costumava levar uma garrafa de uísque para casa, depois de dividi-la com os músicos após os ensaios. Uma vez ele voltava para casa quando viu uma patrulha da milícia xiita. Ele sabia que teria a garganta cortada se encontrassem a garrafa em seu carro, mas foi salvo no último minuto, por um blindado americano que patrulhava a área.

Essa orquestra representa o real mapa do Iraque”, disse Ali Nasser, trombonista. “Esse homem é curdo, um outro alí é cristão. Essa é realmente uma sinfônica nacional. Nossos laços são inquebráveis”. Dizia isso abraçado a Izzat Baban, que acendia um cigarro.

Nasser, talvez mais do que todos, provou sua dedicação à música. Padeiro no sul de Nassíria, ele ou dirige ou pega um táxi para os ensaios. É uma viagem que dura de quatro a seis horas, ida e volta, e o preço da gasolina consome mais da metade de seus ganhos. O pior é que a estrada corre pelo “Triângulo da Morte”, uma área infestada de insurgentes, milicianos e criminosos. Atiradores, certa vez, alvejaram passageiros de um carro poucos metros à sua frente. “Minha mulher diz: ‘Não vá, por favor. A vida é muito ruim em Bagdá. Têm muita morte em Bagdá’. Ela tenta me impedir de vir, mas em tenho que vir. Não podemos sobreviver sem música. É como oxigênio”.

Sobrevivência ainda é a inspiração artística, ao menos por enquanto. Isso ficou evidente nas notas finais do Réquiem, a elegia para o Iraque, interpretada pelo violoncelo de Karim Wasfi. A peça é na maioria estruturada em notas menores, exaltando um clima de desolação. Mas as últimas melodias eram de vigorosas notas maiores. A mensagem era clara: Ainda estamos vivos.

WONG, Edward. And the orchestra plays on, echoing the Iraq’s struggles. The New York Times on the Web, sessão Music. Extraído de
http://www.nytimes.com, acessado em 28 de setembro de 2006.